MERCADO DE CAFÉ – ANÁLISE
Café sobe pela segunda semana: estoques baixos e colheita lenta abrem uma nova janela de decisão
KCU26 fechou em 267,80¢, com alta semanal de 5,68% e segunda semana seguida de recuperação. A leitura da semana não está apenas no preço: estoques certificados da ICE em 394 mil sacas, colheita do arábica abaixo do ritmo de 2025 e ausência do COT por causa do feriado de Juneteenth exigem separar o que é estoque, o que é atraso de colheita e o que é apenas fluxo técnico de pregão.
Semana de 22–26/jun: sem COT atualizado na semana anterior, a leitura de preço precisa combinar três camadas: colheita e estoque no presente, posicionamento dos fundos quando o relatório voltar e risco climático/regulatório no horizonte. KCU26 fechou em 267,80¢, próximo do Target Barchart e abaixo do Pivot de 270,30¢.
+14,40¢ (+5,68%) na semana · 2ª semana seguida de alta
−54,1% vs. ano anterior (859.389 sc) · queda contínua na semana
Arábica abaixo da média de 5 anos (30%) e de 2025 (34%)
Volume/dia +26,2% YoY · preço médio/saca −19,2% YoY
Dólar fechou em alta · pressionou café (Asplund/Barchart)
Sem atualização (feriado) · última leitura: 09/06
A semana dia a dia: segunda alta seguida sem confirmação do COT
O movimento de recuperação iniciado na semana anterior ganhou continuidade: o KCU26 fechou a quinta-feira em 267,80¢, com alta acumulada de 5,68% na semana. A leitura, porém, exige cautela. A sexta-feira foi feriado de Juneteenth nos Estados Unidos, a ICE Futures US não negociou e a CFTC não publicou o COT. Sem a fotografia de posicionamento dos fundos, a análise desta edição separa os fatos que alteram oferta e caixa, os vetores que movem o preço no presente e os riscos que podem influenciar a curva futura.
O fato relevante da semana: colheita lenta, estoque curto e caixa pressionado
O tema mais relevante da semana não foi apenas a alta do contrato futuro. Foi a combinação entre colheita mais lenta do arábica, estoques certificados ainda comprimidos e postergação da liquidez no campo. A Safras & Mercado divulgou, com dados até 17/06, avanço de 39% da safra brasileira. O número agregado parece confortável, mas a abertura por variedade muda a leitura: o canéfora avança mais rapidamente, enquanto o arábica está em 29%, abaixo dos 34% registrados no mesmo período de 2025 e levemente abaixo da média de cinco anos.
A leitura de praça confirma essa assimetria. A Cooxupé indica colheita ainda gradual em sua área de atuação, com 15,8% da área colhida até 14/06. A abertura regional reforça a diferença entre origens: São Paulo aparece mais adiantado, Matas de Minas e Sul de Minas seguem em ritmo intermediário, e o Cerrado Mineiro permanece mais lento. No Cerrado, o diretor-presidente da Expocacer, Simão Pedro de Limas, relatou cerca de 60 mm de chuva em três dias, com queda de frutos em algumas áreas e interrupção temporária de operações de terreiro. A cooperativa ainda projeta safra regional robusta, de 2,859 milhões de sacas, mas o ponto de curto prazo não é o volume final. É o tempo necessário para transformar esse volume em café disponível, seco, classificado, vendido e liquidado.
Para a Backsource, a consequência econômica é direta: atraso de colheita não muda necessariamente o tamanho da safra, mas altera o calendário de caixa. Cada semana adicional no campo ou no terreiro posterga receita, aumenta a necessidade de capital de giro e prolonga o custo financeiro associado a CPR, adiantamentos e estoques. Para cooperativas, tradings e produtores com maior alavancagem operacional, esse descompasso entre safra recorde e liquidez efetiva pode pesar tanto quanto a variação diária do preço.
Os embarques de junho já mostram essa transição. Em nove dias úteis, o Brasil embarcou 1,27 milhão de sacas, com volume diário 26,2% superior ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, o preço médio por saca em dólares caiu 19,2% na comparação anual. O setor começa a escoar mais volume, mas com menor preço unitário. Esse é o fato relevante da semana: a oferta existe, mas chega ao mercado em uma velocidade que ainda não elimina a tensão de curto prazo entre estoque disponível e necessidade de caixa.
Preço no presente: suporte real, volatilidade narrativa
No curto prazo, o preço do café foi sustentado por fundamentos reais: estoques certificados da ICE em queda, colheita do arábica abaixo do ritmo de 2025 e eventos climáticos localizados com impacto verificável. O risco, porém, está em transformar esses fundamentos em uma explicação única para todos os movimentos do mercado. Quando a palavra “clima” passa a justificar qualquer alta ou queda, a análise deixa de separar causa, fluxo e narrativa.
“O clima é um fundamento relevante nesta semana. Mas a leitura de preço precisa distinguir dano mensurável, atraso operacional e movimento tático de pregão. Nem toda alta com manchete climática representa reprecificação estrutural.”
A quinta-feira ilustra essa distinção. O contrato abriu em 272,70¢, avançou até 278,10¢ pela manhã com a narrativa de preocupação sobre colheita e qualidade, mas fechou em 267,80¢ depois de tocar 265,00¢. A amplitude de 13,10¢ foi a maior da semana, e a alta inicial foi devolvida no mesmo pregão. Esse padrão sugere fluxo tático, realização e reposicionamento intradiário, não uma mudança completa de tendência. O fundamento existe, mas o movimento específico não deve ser lido como prova isolada de reversão.
A terça-feira foi diferente. A alta de 5,2% coincidiu com novo evento de granizo em Manhuaçu e cidades da Zona da Mata, distinto das tempestades de 30/05 a 01/06 no Sul de Minas. O levantamento da Emater-MG sobre o primeiro episódio quantificou 10.216 hectares produtivos atingidos e 1.066 produtores afetados, com o café como cultura mais prejudicada. Quando há dano localizado, registro oficial e potencial impacto sobre volume ou qualidade, a reação de preço tem base mais clara.
A influência no preço presente, portanto, deve ser lida em três camadas. A primeira é o estoque disponível, ainda curto, que sustenta prêmio no curto prazo. A segunda é o atraso de colheita, que posterga oferta comercializável e caixa. A terceira é o fluxo técnico, que pode amplificar movimentos, especialmente em semanas sem COT atualizado. Para o produtor, a conclusão é prática: a alta melhora a janela de venda, mas não elimina a necessidade de distinguir oportunidade tática de mudança estrutural.
Preço futuro: El Niño, robusta asiático e EUDR mudam o horizonte de risco
O preço futuro do café será menos determinado pela alta desta semana e mais pela interação entre três vetores: risco climático, robusta asiático e acesso regulatório aos mercados compradores. A WisdomTree, maior gestora de fundos ligados a café, reforçou nesta semana uma leitura importante: o canal mais direto de transmissão do El Niño para o café global não está apenas no arábica brasileiro, mas no robusta do Vietnã e da Indonésia, países que concentram aproximadamente metade da produção mundial da variedade.
Esse ponto muda o horizonte de análise. Para o Brasil, a discussão climática atual envolve atraso de colheita, granizo localizado e qualidade do arábica. Para o mercado global, o risco relevante para o fim de 2026 e início de 2027 pode estar no robusta asiático, com temperaturas mais altas e menor regime de chuvas afetando produtividade e disponibilidade. Isso ajuda a explicar a sustentação do robusta em Londres mesmo em semanas de baixa liquidez nos Estados Unidos. Para o conilon brasileiro, esse vetor funciona mais como suporte externo de preço do que como risco produtivo direto.
No campo regulatório, a presença da Cecafé no encerramento do programa AL-INVEST Verde, em Bruxelas, também deve ser lida como fator de preço futuro. A entidade apresentou à Comissão Europeia a tese de que o Brasil produz hoje volume 3,5 vezes superior ao de três décadas atrás na mesma área cultivada, com efeito poupa-terra e estoque de carbono relevante nas áreas cafeeiras. Esse argumento será decisivo na transição para a EUDR, porque o comprador europeu não avaliará apenas preço e qualidade. Avaliará origem, rastreabilidade, diligência e capacidade documental.
A influência no preço futuro, portanto, não virá de um único fator. Virá da combinação entre risco climático nos países produtores, escassez relativa de robusta, velocidade de normalização dos estoques certificados e capacidade de comprovar origem ao comprador internacional. A leitura Backsource passa a dividir o mercado em duas frentes: no presente, preço e caixa respondem ao estoque disponível e ao ritmo da colheita; no futuro, prêmio e acesso dependerão de clima, dados e conformidade.
Régua de Preços · KCU26
O fechamento de quinta-feira deixou o mercado numa posição tecnicamente interessante: 267,80¢ está a apenas 0,75¢ do Target Price calculado pelo Barchart (268,55¢): o mercado fechou a semana quase exatamente onde o modelo estatístico apontava. O Pivot, porém, subiu para 270,30¢ com o movimento da semana, ficando 2,50¢ acima do fechamento atual, diferente da configuração da semana passada, em que o preço havia acabado de romper o Pivot por cima. Esta semana, o mercado fecha abaixo dele, precisando reconquistá-lo para confirmar continuidade técnica.
Zona de resistência
270,30 a 277,12¢
Pivot (270,30¢) é o teste técnico imediato, 2,50¢ acima. Em sequência: 14-3 Stoch 80% (270,25¢), +1σ (273,18¢), PP1R (275,60¢), +2σ (275,41¢) e +3σ (277,12¢). Reconquistar o Pivot é o que confirmaria continuidade da tendência iniciada há duas semanas.
Posição atual
267,80¢/lb
+14,40¢ (+5,68%) na semana · −2,50¢ do Pivot · −0,75¢ do Target Price (268,55¢)
Zona de suporte
257,20 a 266,33¢
14-3 Stoch 70% (266,33¢) e a mínima da sessão de quinta (265,00¢) formam o primeiro piso. Abaixo: cruzamento da MM40 (263,55¢), PP1S (262,50¢), −1σ (262,42¢), −2σ (260,19¢) e PP2S (257,20¢), este último praticamente no nível em que a semana havia começado.
Referência detalhada de níveis · KCU26
Fonte: Barchart.com · KCU26 Cheat Sheet · 19/06/2026 · 23h45 CDT (reflete fechamento de quinta, 18/06, devido ao feriado de sexta)
Cenários · semana de 22 a 26 de junho
Matriz de decisão · semana de 22 a 26 de junho
| Perfil | Posição atual | Sinal | Ação prioritária | Raciocínio |
|---|---|---|---|---|
| Cerrado Mineiro Mecanizado · custo R$1.100–1.250/sc |
Duas semanas seguidas de alta · margem ampliada | Vender no patamar atual | Aproveitar o nível de 267,80¢ para realizar margem, sem esperar confirmação do COT que não está disponível esta semana. | Sem o termômetro de posicionamento dos fundos, operar na incerteza é mais arriscado que vender no nível já conquistado. O mercado fechou quase exatamente no Target Price técnico, um ponto de equilíbrio estatístico, não necessariamente de continuidade. |
| Sul de Minas Custo R$1.300–1.450/sc |
10.216 ha atingidos por granizo (Emater-MG) · colheita lenta | Avaliar dano antes de vender | Produtores nas áreas atingidas pelo granizo de 30/05–01/06 devem priorizar avaliação técnica de dano (CNC) antes de qualquer decisão de venda do volume remanescente. | Com 1.066 produtores afetados oficialmente quantificados, o volume comercializável da região pode estar diferente do projetado antes do levantamento da Emater-MG. Decisões de venda sem essa informação correm risco de subdimensionar ou superdimensionar a safra disponível. |
| Matas de Minas · Manhuaçu Viveiros · EUDR |
Novo granizo (16/06) · dano ainda não quantificado | Monitorar de perto | Buscar dimensionamento local do dano em viveiros antes de qualquer leitura sobre impacto na safra 2027. | Dano em viveiro (mudas) tem efeito de médio prazo sobre plantio futuro, diferente de dano em lavoura já formada (efeito imediato na safra corrente). A distinção importa para o horizonte de decisão. |
| Conilon / Robusta Custo R$350–500/sc |
Robusta sustentado mesmo em feriado · risco El Niño (WisdomTree) | Acompanhar Vietnã/Indonésia | Risco estrutural de médio prazo para o robusta vem de fora do Brasil: monitorar desenvolvimento do El Niño sobre Vietnã e Indonésia, não apenas o clima local. | A WisdomTree identifica o robusta como o elo mais exposto ao El Niño globalmente, via Vietnã/Indonésia (50% da produção mundial). Para o conilon brasileiro, isso é fundamento de sustentação de preço externo, não de risco produtivo direto. |
| Trading / Exportador Arábica e/ou robusta |
KCU26 a 0,75¢ do Target · sem COT esta semana | Aguardar COT acumulado | O COT da próxima sexta deve refletir duas semanas de movimento acumulado, leitura mais relevante que o normal, dado o gap desta semana. | Sem dado de posicionamento intermediário, qualquer leitura sobre convicção dos fundos nesta semana é especulativa. A próxima publicação carrega informação de duas semanas, não uma; analisar com atenção redobrada. |
| Cooperativa Carteira mista · capital de giro |
Embarques de junho aceleram, mas atrás do ritmo de maio | Travar capital de giro no nível atual | Com o atraso de colheita pressionando o timing de caixa, travar uma parcela do volume já disponível no nível de preço atual reduz exposição dupla (preço e prazo). | O atraso do arábica (29% ante média de 30% e 34% em 2025) não muda o tamanho da safra, mas adia a liquidez. Cooperativas mais alavancadas devem priorizar previsibilidade de caixa sobre tentar capturar mais alta de preço. |
| Gestor FIAGRO CPRs e estoques · LTV |
Segunda semana de alta amplia colchão de garantia | Revisar laudos sem o COT | Aproveitar a melhora acumulada de duas semanas para revisão de garantias, mas sem o COT como variável de confirmação de tendência nesta rodada. | A ausência do termômetro de posicionamento eleva a incerteza sobre se a melhora do LTV é sustentável. O posicionamento institucional da WisdomTree sobre El Niño reforça o argumento estrutural de curto prazo, mas não substitui o dado de fluxo que o COT normalmente oferece. |
A semana de 15 a 19 de junho reforça uma distinção que vale carregar para as próximas edições: nem todo movimento que cita “clima” como causa tem, de fato, uma relação causal mensurável com o clima. A terça-feira teve fundamento real (novo granizo, colheita lenta). A quinta-feira teve uma narrativa de clima que não sobreviveu ao próprio pregão. Separar as duas coisas, pregão a pregão, é o tipo de disciplina que a falta do COT nesta semana torna ainda mais necessária: sem o dado de posicionamento, a tentação de aceitar a narrativa mais disponível como explicação completa é maior, não menor.
O mercado não pune a falta de euforia. Ele pune a falta de estrutura. Nesta semana, a estrutura que faltou não foi a do preço nem a do estoque. Foi a do dado. Sem o COT, a melhor defesa contra a narrativa é voltar, pregão a pregão, ao que de fato mudou no balanço de oferta e demanda, e não ao que foi dito sobre ele.