MERCADO DE CAFÉ – ANÁLISE
Arábica reage: estoques baixos abrem janela, mas safra recorde exige decisão
KCN26 tocou nova mínima de ciclo e recuperou 4,34% na semana. A virada combinou vencimento de opções de julho, interrupções pontuais na colheita e estoques certificados da ICE abaixo de 400 mil sacas. A partir desta edição, a Régua de Preços passa a acompanhar o KCU26, contrato de referência para a próxima etapa da safra.
Semana de 15–19/jun: KCU26 fecha acima do Pivot pela primeira vez em semanas, com a MM18 ainda como resistência imediata. A retomada da colheita deve ser monitorada a partir da metade da semana. Estoques certificados ICE seguem abaixo de 400 mil sacas e o próximo COT, com dados até 16/06, será decisivo para medir a cobertura de vendidos.
+10,70¢ (+4,34%) na semana · Mínima da semana: 242,70¢ (10 meses)
Acima do Pivot (252,33¢) · 3,80¢ de desconto vs. KCN26
−51,7% vs. ano anterior (826.484 sc) · Abaixo de 400 mil
Guaxupé R$1.528 (+4,44%) · Varginha R$1.570 (+1,29%)
+2,77% · Robusta Londres atingiu US$3.628/t na semana
Real fortaleceu de R$5,16 (05/06) para R$5,06
A semana dia a dia: do fundo técnico à recuperação sustentada pelo estoque
Depois de quatro semanas consecutivas de queda e de uma mínima relevante na sexta anterior, o mercado entregou o movimento que vínhamos tratando como possível: uma recuperação técnica rápida, concentrada em três sessões. A semana começou em consolidação, atingiu novo piso de ciclo na terça-feira e terminou com a maior alta semanal recente.
O fundo da semana e a referência Barchart: contrato, ajuste e recuperação técnica
A divergência entre 242,70¢ e 238,85¢ não é uma contradição de mercado. É uma diferença metodológica. O primeiro número se refere à leitura de mínima negociada no KCN26, contrato julho, durante a sessão de terça-feira. O segundo aparece na referência de Price Performance do Barchart, que pode combinar janela de captura, contrato observado, série contínua, último preço e ajuste. Em futuros, esses pontos não são sempre equivalentes.
Para a Régua de Preços, a referência operacional passa a ser o Barchart Cheat Sheet do KCU26, porque o contrato setembro se torna mais representativo à medida que o julho se aproxima da entrega física. Isso evita misturar o fundo do contrato que vence, a mínima da série exibida no painel de performance e o ajuste utilizado para cálculo técnico. A diferença entre os números muda a precisão do registro, mas não muda a conclusão: o mercado tocou um novo piso de ciclo e reagiu a partir de uma zona estatisticamente extrema.
O mecanismo da reversão foi técnico. O vencimento das opções de julho aproximou os vendidos em puts nos strikes de 250¢ e 245¢ de uma região sensível. A recompra de proteção, somada à pausa na colheita por chuvas fortes e à atenção crescente aos estoques certificados, produziu uma alta próxima de 1.500 pontos a partir da mínima da semana.
“O COT capturou o mercado no ponto de maior fragilidade: Managed Money em +11.863 contratos, abaixo do limiar de +15.000 que havíamos definido. O que veio depois foi a mecânica típica de fundo técnico: opção vencendo, vendido recomprando e estoque curto ganhando peso na formação de preço.”
Para o produtor, a leitura é objetiva. A recuperação desta semana não nasceu de uma revisão da safra, que segue elevada. Ela nasceu de uma combinação entre microestrutura de mercado, interrupção pontual da colheita e estoque certificado apertado. Por isso, o repique deve ser tratado como correção técnica dentro de uma tendência de médio prazo ainda pressionada, não como reversão definitiva.
Por que o estoque fala mais alto que a safra agora
O aparente paradoxo entre safra recorde e alta de preços se resolve quando separamos duas variáveis distintas: oferta projetada e estoque disponível para entrega. A safra é uma expectativa de volume futuro. O estoque certificado é disponibilidade imediata, auditável e aceita pela bolsa para liquidação física.
Os estoques certificados de arábica na ICE caíram para 399.490 sacas em 11/06, com redução de 3.219 sacas no dia e de 6.559 sacas na sessão anterior. Há um ano, esse número era de 826.484 sacas, o que representa queda de 51,7% em 12 meses. Em maio, o recuo foi de 63.853 sacas. Esse é o dado que o mercado passou a precificar na segunda metade da semana.
Os boletins do Escritório Carvalhaes vêm chamando atenção para essa distinção. O mercado pode discutir uma safra entre 66,7 e 70 milhões de sacas, mas essa produção ainda precisa ser colhida, beneficiada, classificada, transportada e eventualmente certificada. Até 5/06, os embarques de junho somavam 154.627 sacas, contra 449.873 sacas no mesmo dia de maio. A desaceleração do embarque apareceu justamente quando o consenso esperava aceleração.
Essa é a explicação mais sólida para a alta de quinta-feira. O mercado não passou a acreditar que a safra é pequena. Ele apenas reconheceu que o café disponível para entrega nas próximas semanas era menor do que o preço de 246,50¢ sugeria. Quando o estoque imediato fica escasso, a safra projetada perde parte do poder de pressão no curtíssimo prazo.
Cecafé +3,6% em maio: como ler exportação sem misturar ciclos
A divergência entre os alertas da OIC e o dado positivo da Cecafé não deve ser lida como contradição. Ela mostra que o mercado está olhando, ao mesmo tempo, para três recortes diferentes: o mês isolado, o acumulado do ano civil e o ano-safra que está terminando. Cada recorte responde a uma pergunta distinta.
A leitura correta não é escolher entre OIC e Cecafé. Maio de 2026 marca o ponto de inflexão entre dois regimes: o ciclo 2025, menor e ainda refletido no acumulado, e o ciclo 2026, maior e já visível no dado mensal. A leitura Backsource é que o Brasil pode voltar a operar, nos próximos 12 meses, em um ritmo de exportação muito superior ao do ano-safra que se encerra. O ponto para o preço é simples: a melhora do fluxo confirma a entrada da safra, mas ainda não resolve o aperto do estoque certificado no curto prazo.
Um dado complementar reforça a pressão de preço: o valor médio exportado por saca caiu de US$433,69 (maio/25) para US$350,04 (maio/26), uma queda de 19,3%. A receita em dólares caiu 16% no mês mesmo com o volume crescendo 3,6%, porque o preço por unidade despencou. É a mesma dinâmica que vimos no físico interno, espelhada no valor de exportação.
IBGE confirma 66,8 milhões: a terceira estimativa convergente
O IBGE elevou sua estimativa para a safra 2026 em 1% frente ao mês anterior, projetando 66,8 milhões de sacas, novo recorde. O arábica foi estimado em 44,4 milhões de sacas (+1,1% no mês), com o instituto citando melhora no “pegamento dos chumbinhos” e expectativa de bienalidade positiva. O conilon/robusta foi estimado em 22,4 milhões de sacas (+0,7% no mês), também recorde, com crescimento de 6,8% sobre 2025, atribuído a aumento de 3,9% na área colhida e 2,8% no rendimento médio.
Com isso, as três principais estimativas oficiais da safra 2026 convergem para uma faixa estreita: Conab em 66,7 milhões, IBGE em 66,8 milhões, e USDA em 70 milhões. A diferença entre as duas primeiras é estatisticamente irrelevante. O que se consolida é que o piso da safra está em torno de 66,7–66,8 milhões, com o USDA mantendo uma margem adicional de otimismo. O desafio que se coloca agora não é mais “quanto será a safra”. A questão agora é como o mercado e o setor vão lidar com a abundância: ampliar mercados e relações comerciais é uma resposta possível, em vez de deixar a narrativa de “oferta excessiva” pressionar unilateralmente a decisão de venda do produtor.
COT confirma a virada técnica, mas não muda a tendência do café
Na edição anterior, estabelecemos um gatilho objetivo: se o net long dos fundos caísse abaixo de +15.000 contratos, o desmonte deixaria de ser apenas redução gradual de exposição e passaria a indicar aceleração do viés baixista. O COT desta semana, com dados até terça-feira 09/06 e publicação na sexta, confirmou exatamente esse ponto. A leitura veio ainda mais forte do que o cenário-base sugeria.
OI: 193.648
OI: 202.855 (−3.349/sem)
OI: 213.519 (−7.761/sem)
A variação semanal mais que dobrou, de −3.349 para −7.761 contratos. O movimento não foi apenas redução de posições compradas. Houve ampliação relevante de shorts, com aumento de +6.417 contratos vendidos e queda de −1.344 contratos comprados. Esse era o posicionamento existente no fundo do mercado, na terça-feira.
O ponto central é que o COT explica a fragilidade do fundo, mas não captura a reversão posterior. A alta de quarta a sexta ocorreu depois do corte estatístico do relatório. Por isso, o próximo COT, com dados até 16/06, será decisivo. Se mostrar recomposição do net long para a faixa de +18.000 a +20.000 contratos, o rali terá sido majoritariamente cobertura de vendidos. Se o net long permanecer baixo, a leitura muda: parte do movimento pode ter vindo de compra nova, o que daria mais sustentação ao repique.
Essa é a contribuição da Régua Backsource para a leitura do fluxo: o preço mostra o movimento, mas o COT mostra a qualidade desse movimento. Nesta semana, o gatilho identificado anteriormente apareceu no relatório e, em seguida, virou combustível para a recuperação técnica.
Sobre a referência do agnocafe, com relatório de 08/06 e números de “-87%”, −3.636 longs e +5.237 shorts, não localizamos correspondência exata nas tabelas oficiais da CFTC para o período. Os dados validados em Coffee C, Futures Only, código 083731, mostram a variação de −1.344 longs e +6.417 shorts entre 02/06 e 09/06. Mantemos a CFTC como fonte primária e tratamos divergências de leitura como ponto de verificação, não como base da régua.
A migração para o KCU26: nova Régua de Preços
A partir desta edição, a Régua de Preços passa a acompanhar o KCU26 (setembro/26), que se torna o contrato de maior liquidez e referência analítica à medida que o KCN26 (julho/26) se aproxima do período de entrega física. O KCN26 encerrou a semana em 257,20¢; o KCU26 fechou em 253,40¢, um desconto de 3,80¢ do contrato setembro frente ao julho. Esse prêmio do contrato mais próximo é coerente com o que discutimos sobre estoques certificados: o mercado está disposto a pagar mais por entrega mais próxima, justamente porque o estoque imediatamente disponível está escasso.
A sessão de segunda-feira (15/06) já confirma a continuidade do repique, e por isso atualizamos a Régua com o dado mais recente para evitar dispersão entre a leitura publicada e o painel ao vivo do Barchart. Até as 12h59 CDT, o KCU26 operava em 259,20¢, alta de 5,80¢ sobre o fechamento de sexta (253,40¢). Nessa única sessão, o contrato superou em sequência a MM9, o Pivot, a MM18, o PP1R, o Target e o PP2R, todos os quais passam a funcionar como suporte. O preço atual já está dentro da faixa do cenário “Continuação” (258–263¢) projetado para a semana, e o próximo teste é o agrupamento PP3R/+1σ, entre 260,52¢ e 260,69¢, apenas 1,3 a 1,5¢ acima. As bandas de desvio padrão também se recalcularam com o novo dado: +2σ sobe para 263,71¢ e +3σ para 266,02¢, enquanto −1σ recua para 246,11¢.
Zona de resistência
260,52, 266,02¢
PP3R (260,52¢) e +1σ (260,69¢) formam um teto imediato apenas 1,3 a 1,5¢ acima, praticamente um agrupamento único. Em sequência: +2σ (263,71¢), MM40 (265,13¢) e +3σ (266,02¢). Ruptura desse agrupamento abre caminho para o topo da faixa “Continuação”.
Posição atual
259,20¢/lb
+5,80¢ sobre o fechamento de sexta (253,40¢) · já dentro do cenário “Continuação” (258–263¢) · 1,32¢ do PP3R
Zona de suporte
246,11, 257,43¢
PP2R (257,43¢) e Target (257,02¢), resistências da semana passada, agora primeiro suporte, apenas 1,8–2,2¢ abaixo. Em sequência: PP1R (255,42¢), MM18 (253,80¢), Pivot (252,33¢), PP1S (250,32¢) e −1σ (246,11¢). Esses níveis formam o “colchão” do repique caso haja retração.
Referência detalhada de níveis, KCU26
Fonte: Barchart.com · KCU26 Cheat Sheet · 15/06/2026 · 12h59 CDT (dado intradiário, atualiza a edição publicada em 14/06)
Cenários: semana de 15 a 19 de junho
Matriz de decisão: semana de 15 a 19 de junho
| Perfil | Posição atual | Sinal | Ação prioritária | Raciocínio |
|---|---|---|---|---|
| Cerrado Mineiro Mecanizado · custo R$1.100–1.250/sc |
Físico recuperou para R$1.450–1.575 · Margem positiva restaurada | Vender no repique | Quem não vendeu na mínima da semana passada recebeu uma segunda chance esta semana. Aproveitar o repique para realizar margem. | O contraponto estrutural, com cenários de stress próximos de 150¢ em NY, reforça que repiques técnicos dentro de tendência baixista são janelas de venda, não de espera. A margem está restaurada, capturá-la é gestão de risco, não pessimismo. |
| Sul de Minas Custo R$1.300–1.450/sc |
Varginha R$1.570 (+1,29%) · Colheita ainda lenta (Cooxupé 12%) | Travar parcela adicional | Aproveitar o repique para travar uma parcela adicional além da já fixada nas semanas anteriores. | A colheita lenta (12% vs. normal de ~21% para a data) é, paradoxalmente, o que sustenta o preço agora. Quando a colheita acelerar, esse suporte específico se reduz. Travar enquanto o suporte está ativo é a leitura correta. |
| Matas de Minas · Especiais +80 pts · EUDR |
Prêmio de qualidade ativo · Doença silenciosa em monitoramento | Monitorar doenças | Continuar negociação direta por prêmio. Acompanhar notícias sobre a “doença silenciosa” nos cafezais, ainda sem dados suficientes para ação específica. | O mercado de especiais opera fora da lógica de commodity, o repique de preço de mercado não altera a estratégia de negociação direta. A nova ameaça fitossanitária mencionada nesta semana é cedo demais para avaliar, mas justifica monitoramento próximo nos próximos dias. |
| Conilon ES Tipo 7/8 · custo R$350–500/sc |
R$928/sc (+2,77%) · Robusta Londres em alta na semana (US$3.628/t) | Vender disponível | Segunda semana consecutiva de alta no conilon. Vender o disponível com margem ampla, de R$873 para R$928/sc em uma semana. | O robusta segue puxado por fatores próprios (oferta global mais restrita), independentes do ciclo de safra brasileira de arábica. Com margem superior a R$400/sc sobre o custo de produção, segurar disponível na expectativa de alta adicional é especulação, não gestão. |
| Trading / Exportador Arábica e/ou robusta |
KCU26 acima do Pivot · Spread Jul-Set 3,80¢ · COT de 16/06 na sexta | Aguardar COT de cobertura | O dado mais crítico da próxima semana é o COT de sexta (16/06): revelará se os fundos cobriram a posição vendida aberta na terça-feira durante o rali de quarta a sexta. | Se o COT mostrar Managed Money retornando a net long acima de +18.000–20.000, o rali foi em boa parte cobertura de shorts, movimento técnico que tende a perder força. Se o net long permanecer baixo (próximo de +11.863), o rali teve participação compradora genuína, sinal mais construtivo para continuação. |
| Cooperativa Carteira mista · capital de giro |
Físico recuperado · IBGE 66,8M confirmado · Selic 14,50% | Aproveitar janela de CPR | O repique reabre, temporariamente, uma janela de CPR a preços mais favoráveis que a semana anterior. Aproveitar com os associados que ainda não fixaram. | Com as três estimativas oficiais convergindo (66,7–66,8M), o tamanho da safra deixou de ser incerteza, o que resta é a logística de comercialização. O repique técnico desta semana é uma oportunidade tática de travar capital de giro a um custo melhor do que na mínima da semana passada. |
| Gestor FIAGRO CPRs e estoques · LTV |
Recuperação de ~4% no físico oferece alívio temporário de LTV | Usar a janela para reavaliar | A recuperação de preço desta semana melhora temporariamente o índice de cobertura das garantias, usar essa janela para reavaliações e ajustes de carteira antes de um eventual retorno da pressão baixista. | O cenário estrutural, com risco de preços significativamente menores no médio prazo e recomposição de estoques globais até 2029/30, sugere que recuperações como esta podem ser temporárias. Gestores devem aproveitar a melhora momentânea do LTV para revisar garantias e não tratar o repique como nova base permanente de avaliação. |
A semana de 8 a 12 de junho confirmou, com precisão quase didática, dois princípios que vínhamos descrevendo separadamente nas últimas edições: primeiro, que o desmonte acelerado de posições longas dos fundos (nosso limiar de +15.000 contratos) tende a coincidir com pontos de inflexão. O ponto não é que os fundos “erram”; é que posições extremas criam as condições mecânicas (vencimento de opções, cobertura de shorts) para reversões técnicas. Segundo, que o “estoque disponível” e a “safra projetada” são variáveis com dinâmicas próprias. Quando o mercado finalmente direciona sua atenção para a primeira, mesmo com a segunda em níveis recordes, o preço pode subir.
Nenhuma dessas duas confirmações altera o quadro estrutural de médio prazo, que continua apontando para baixo, reforçado nesta semana pela perspectiva da OIC sobre a expansão da produção africana e por cenários de stress que recolocam preços próximos de 150¢ no radar de médio prazo. O que muda é a tática: dentro de uma tendência baixista, repiques como o desta semana são, historicamente, as melhores janelas de venda, não sinais para reverter posições de hedge.
O mercado não pune a falta de euforia. Ele pune a falta de estrutura. Esta semana, a estrutura que importou não foi a do preço. Foi a do estoque. E o estoque, neste momento, está mais apertado do que o preço de 246,50¢ da semana passada sugeria.