MERCADO DE CAFÉ – ANÁLISE

Café volta ao topo:
atraso da colheita e estoques baixos
reabrem a disputa pelo preço

Entre 29 de junho e 6 de julho, o KCU26 avançou 28,1% e fechou a 349,95¢/lb, após tocar 357,00¢. A oferta física demorou a chegar, os estoques certificados seguiram em queda e o COT mostrou que a primeira perna da alta foi liderada por cobertura de posições vendidas. Para a decisão, o movimento melhora a margem do produtor, mas também amplia o risco de correção.

BACKSOURCE · JEREMIAS JANJÃO DO NASCIMENTO
PUBLICADO EM 06 JUL 2026
REFERÊNCIA: SEMANA DE 29 JUN–06 JUL 2026
TEMPO DE LEITURA 7 MINUTOS

O KCU26 ajustou a 349,95¢ em 6 de julho, após tocar 357,00¢, ficando 11,60¢ abaixo do topo histórico de 361,55¢. O COT com referência em 30/06 mostra que 84% da variação líquida do Managed Money veio do fechamento de posições vendidas. Como o relatório não captura os pregões posteriores ao corte, ele explica a primeira perna da alta, mas ainda não confirma a sustentação de todo o movimento. A leitura é de reprecificação tática com risco elevado de correção.

KCU26 · 06/07
349,95¢/lb

+76,75¢ (+28,09%) no período

Máx. sessão
357,00¢

−14,25¢ do ATH

Físico Tipo 6
R$ 1.700–1.776/sc

alta de 8–10% em uma semana

Conilon ES 7/8
R$ 1.025/sc

mercado mais firme, mas abaixo do arábica

ICE Estoques
377.465 sc

mínima de 2,25 anos

Colheita
52%

vs. 60% a/a · 55% média 5 anos

A semana dia a dia: seis pregões e uma reprecificação de 77 centavos

PregãoEvento & leitura Backsource
Jun
Seg 29
Pressão climática
277,80¢ (+4,60 · +1,68%). Arábica abriu a semana em alta com robusta na direção oposta (−1,74%), configurando desempenho misto entre praças. O gatilho veio da Somar Meteorologia: a precipitação em Minas Gerais na semana encerrada em 28/06 foi de 31,3 mm, equivalente a 1.956% da média histórica para o período. A leitura indica que a chuva fora de padrão não é pontual; ela está se estabelecendo como variável persistente. A cooperativa do Cerrado (Expocacer) já registrava atraso na colheita e preocupação com a qualidade do grão em secagem.
Jun
Ter 30
Cobertura de vendidos
296,45¢ (+18,65 · +6,71%). Maior alta diária em cinco meses. O KCU26 atingiu máxima de 4,5 meses em um movimento clássico de cobertura forçada de posições vendidas: posições vendidas foram forçadas a se cobrir em um mercado com liquidez cada vez mais restrita. Estoques certificados ICE caíram para 377.465 sacas, renovando a mínima de 2,25 anos. A sessão encerrou junho com o arábica em trajetória oposta à narrativa de superávit. Produtores, ao verem o preço subir fora de época, reduziram ainda mais o apetite de venda.
Jul
Qua 01
Confirmação
309,90¢ (+13,45 · +4,54%). Máxima de 4,75 meses. A Safras & Mercado divulgou dados de colheita (ref. 01/07): 52% da área colhida contra 60% no mesmo período do ano anterior e 55% da média de cinco anos. Dado confirmou o que cooperativas como Cooxupé (24,9%) e Expocacer (27%) já vinham reportando no campo. Dois dias consecutivos acima de +4% consolidaram a ruptura técnica. O CEPEA publicou parecer sobre degradação da qualidade do café por conta das chuvas, tema que levantamos na edição anterior.
Jul
Qui 02
Realização
301,20¢ (−8,70 · −2,81%). Realização de lucros e liquidação de posições compradas antes do feriado prolongado. O contrato abriu a 313,50¢, tocou máxima de 316,80¢ e devolveu 15,60¢ da máxima ao fechamento. Volume robusto: 29.164 contratos no KCU26 com OI recuando em 2.009 para 82.462, sinalizando que a queda foi por saída de posições e não por abertura de posições vendidas. Payroll de junho publicado antecipadamente: 57.000 vagas (muito abaixo das expectativas), contribuindo para incerteza macro.
Jul
Sex 03
Feriado
Mercados dos EUA fechados pelo Dia da Independência (observado). Robusta negociou em Londres com queda leve. O feriado prolongado (sexta a domingo) criou três dias de acúmulo de informações sem mecanismo de preço para processá-las: dados de colheita, previsão de chuva da Rural Clima e posicionamento dos produtores se acumularam sem descoberta de preço.
Jul
Seg 06
Reprecificação
349,95¢ (+48,75 · +16,19% vs. quinta), com máxima intradiária de 357,00¢. A reabertura absorveu informações acumuladas durante o feriado e produziu uma cobertura acelerada de posições vendidas. A colheita em 52%, a previsão de novas chuvas em meados de julho e a retenção de vendas por parte dos produtores reforçaram a percepção de oferta curta no presente. A devolução de 7,05¢ entre a máxima e o ajuste mostra realização parcial, mas o contrato permaneceu acima das principais referências técnicas. O COT publicado no mesmo dia, com corte em 30/06, mostrou Managed Money líquido comprado em 27.377 contratos, com 5.401 shorts encerrados e 1.058 novos longs. Como o relatório termina antes dos pregões de julho, ele ajuda a explicar a origem da alta, mas não mede integralmente sua continuidade.

Tema da semana: a safra é grande, mas a oferta chegou devagar

A leitura central da semana não é uma revisão do tamanho da safra, mas uma revisão do seu calendário econômico. As principais estimativas continuam apontando para produção elevada. O que mudou foi a velocidade com que esse volume se converte em café colhido, seco, classificado e disponível para venda.

Até 1º de julho, a colheita brasileira havia alcançado 52% da área, ante 60% no mesmo período do ano anterior e média de cinco anos de 55%. Cooxupé e Expocacer também reportavam avanço abaixo do padrão esperado em suas áreas de atuação. Ao mesmo tempo, Minas Gerais recebeu chuva muito acima da média sazonal, interrompendo atividades de campo e elevando o risco de perda de qualidade durante a secagem.

Volume projetado não é oferta imediata

USDA, Rabobank e Conab continuam trabalhando com uma safra ampla. Nenhuma dessas referências foi invalidada. A diferença está entre o café projetado no balanço e o café efetivamente disponível no armazém. O mercado reprecificou essa defasagem.

Qualidade tornou-se variável financeira

O excesso de umidade pode rebaixar a classificação da bebida e reduzir o prêmio de origem. Esse efeito não aparece imediatamente nas estimativas agregadas de produção, mas altera receita, necessidade de capital de giro e valor do estoque recebido por cooperativas e tradings.

Retenção de vendas reduz a liquidez física

Com a alta fora de época e incerteza sobre qualidade e rendimento, produtores com capacidade de armazenagem reduziram a disposição de venda. A oferta curta no presente passou a valer mais do que a abundância projetada para os meses seguintes.

O mercado deixou de discutir apenas o tamanho da safra. Passou a precificar quando o café chega, em que condição chega e quanto capital será necessário para carregá-lo.

Preço no curto prazo: recomposição de estoques amplifica a alta

A alta da semana também reflete uma decisão adiada pelo lado comprador. Durante a queda para 238,85¢ em junho, parte das torrefações, tradings e importadores postergou compras à espera de preços menores e de uma entrada mais rápida da safra brasileira. Quando a oferta física não apareceu no ritmo esperado, a recomposição de estoques passou a ocorrer em um mercado menos líquido.

Esse mecanismo é relevante porque transforma uma dificuldade operacional em pressão financeira. O comprador que precisa cobrir consumo imediato deixa de negociar apenas preço e passa a negociar disponibilidade. Nesse ambiente, estoques certificados baixos, atraso de colheita e menor disposição de venda se reforçam mutuamente.

Estoques certificados permanecem reduzidos

Os estoques de arábica certificados na ICE recuaram para 377.465 sacas, nível muito inferior ao observado um ano antes. A entrada da safra nova ainda não recompôs essa reserva, mantendo elevado o valor relativo do café disponível para entrega.

O físico confirmou a reprecificação

O arábica tipo 6 avançou para a faixa de R$1.700 a R$1.776 por saca. A alta simultânea do mercado físico e do futuro indica competição maior pela originação, ainda que a intensidade varie entre regiões e padrões de qualidade.

Conilon oferece substituição, mas não neutraliza o risco

O conilon também avançou, porém em menor intensidade. O diferencial mais amplo em relação ao arábica favorece ajustes de blend, mas a substituição tem limites técnicos e comerciais. Ela reduz parte da pressão de compra, sem eliminar a escassez relativa do arábica de entrega imediata.

Para o curto prazo, a variável decisiva não é apenas quanto café o Brasil produzirá. É quanto café comercializável estará disponível antes que os compradores concluam sua recomposição de estoques.

Preço no médio prazo: florada, custos e capital ampliam a assimetria

O médio prazo começa quando o mercado deixa de olhar apenas para a safra em colheita e passa a avaliar a formação da safra 2027/28. Entre setembro e outubro, a regularidade das chuvas determinará a qualidade da florada. Um padrão climático adverso nessa janela pode transformar a escassez operacional de hoje em risco produtivo para o próximo ciclo.

O segundo vetor é o custo. Mão de obra, financiamento, seguro, armazenagem e logística elevam o preço mínimo necessário para preservar margem, sobretudo em regiões menos mecanizadas. O preço nominal pode parecer elevado, mas a rentabilidade depende da qualidade entregue, do custo financeiro e da capacidade de carregar estoque.

O terceiro vetor é a transmissão financeira. CPRs, CRAs, Fiagros e operações de hedge aumentaram a conexão entre preço físico, garantias e liquidez. Vendas futuras abaixo do mercado geram custo de oportunidade e podem elevar o risco de descasamento de entrega. Chamadas de margem, contudo, dependem da existência de posições em derivativos com ajuste diário e não devem ser presumidas em contratos físicos comuns.

Para cooperativas, credores e gestores, o ponto central é separar valorização do ativo de melhora efetiva do risco. Preço mais alto fortalece garantias constituídas em estoque, mas também pode aumentar o incentivo econômico para renegociação ou ruptura de compromissos de entrega firmados em níveis muito inferiores.

O risco dos próximos meses não está em clima, custo ou capital isoladamente. Está na possibilidade de os três se moverem ao mesmo tempo, sobre uma safra que o mercado considerava resolvida.

COT confirma a virada técnica, mas mostra dependência da cobertura de vendidos

O COT com referência em 30/06 mostrou que o Managed Money elevou sua posição líquida comprada de 20.918 para 27.377 contratos. A decomposição é mais importante que o saldo: 5.401 posições vendidas foram encerradas, enquanto apenas 1.058 novas posições compradas foram abertas. Assim, 84% da variação líquida veio de cobertura de shorts.

Managed Money líquido
+27.377

Δ +6.459 vs. 23/06

Posições vendidas encerradas
−5.401

84% da variação líquida

Novas posições compradas
+1.058

16% da variação líquida

Open Interest total
183.728

Δ −2.889 · desalavancagem

O relatório confirma a mecânica da primeira perna da alta, mas possui uma limitação temporal: o corte ocorre em 30/06 e, portanto, não inclui os pregões de 1º, 2 e 6 de julho. Ele mostra que a virada começou pela retirada de posições vendidas, mas ainda não permite afirmar que o salto posterior tenha sido sustentado por compra institucional nova.

Os produtores e comerciantes reduziram posições compradas e ampliaram shorts, comportamento compatível com proteção de receita futura. Já a queda do Open Interest indica que o mercado se tornou menor durante a alta. Isso aumenta a velocidade do movimento, mas também reduz a base de posições vendidas disponível para novas coberturas.

Posicionamento e Open Interest · fotografia até 30/06/2026

Grupo Long Δ Short Δ Net
Managed Money 45.242 +1.058 17.865 −5.401 +27.377
Producer/Merchant 38.984 −2.430 63.387 +2.088 −24.403
Swap Dealers 25.832 +99 22.205 +1.359 +3.627
Other Reportables 12.911 +2.620 19.757 +3.601 −6.846
Non-Reportable 7.380 +340 7.135 +40 +245
OI Total: 183.728 Δ −2.889 CFTC 083731 · Futures Only

Régua de Preços · KCU26

KCU26 · Fechamento 06/07/2026
349,95¢/lb
Acima de 2σ · a 11,60¢ do topo histórico

Zona de resistência extrema

342,00 a 361,55¢

O contrato opera entre 2σ de resistência (342,02¢) e o topo histórico (361,55¢). RSI acima de 80% indica sobrecompra extrema. Neste território, a volatilidade é amplificada porque não há referência técnica acima do ATH. Rompimento abre espaço para preço sem âncora de referência.

Ajuste do dia

349,95¢/lb

+48,75¢ em relação ao fechamento de quinta (301,20¢). O ajuste permaneceu acima de R3, 1σ e 2σ, mas 7,05¢ abaixo da máxima intradiária. A distância para o topo histórico é de 11,60¢.

Zona de suporte

295,00 a 312,00¢

Pivot R1 (311,98¢) e retração 61,8% da 52 semanas (314,68¢) formam o primeiro piso. Abaixo, o pivot (306,02¢) e a média 9 dias cruzada (286,01¢) oferecem referências adicionais. A retração para esta zona seria “saudável” do ponto de vista técnico.

Referência detalhada de níveis · KCU26 · Cheat sheet 06/07/2026

Cenários · Semana de 07 a 10 de julho

Os quatro pregões restantes da semana começam com o contrato em sobrecompra extrema, próximo do topo histórico e ainda sem um COT que capture integralmente o salto de 6 de julho. A volatilidade deve continuar elevada. A ata do FOMC, o COT e o WASDE podem acrescentar pressão cambial e reposicionamento ao complexo de commodities.

⬆ Altista
357–380¢
Rompimento do topo histórico (361,55¢). Chuva confirmada para meados de julho interrompe colheita novamente. Estoques ICE continuam em queda. Short covering sem referência técnica acima do ATH. Probabilidade: 30%.
→ Base
312–357¢
Consolidação volátil abaixo do ATH. Correção técnica de sobrecompra seguida de repiques. Colheita avança parcialmente com janela de tempo seco. Mercado testa pivot R1 (312¢) como piso e ATH como teto. Probabilidade: 45%.
⬇ Baixista
286–312¢
Correção acentuada por realização de lucros dos fundos e/ou dólar forte. Tempo seco na primeira quinzena acelera colheita. Retorno para a média de 9 dias (286¢) representaria reversão de ~20% da alta. Probabilidade: 25%.

Matriz de Decisão · Semana de 07 a 10 de julho

Perfil Posição atual Sinal Ação prioritária Raciocínio
Produtor arábica
Cerrado / Sul de Minas · Custo R$900 a R$1.100/sc
Físico R$1.700-1.776/sc. Margem bruta R$600 a R$876/sc. Safra parcialmente no chão. Hedge 30-40% Fixar 30-40% da safra estimada em repiques acima de R$1.750. Venda de calls OTM para capturar prêmio de volatilidade. Margem bruta entre R$600 a R$876/sc é historicamente elevada. A segunda quinzena de julho pode forçar vendas por falta de capacidade de armazenamento. Travar agora protege contra reversão e garante resultado operacional positivo.
Produtor arábica
Matas de Minas · Custo R$1.300 a R$1.500/sc
Físico R$1.700-1.769/sc. Margem bruta R$200 a R$469/sc. Fixar 20-30% Fixar nos repiques. A margem comprimida não permite esperar indefinidamente. Câmbio a R$5,17 adiciona risco. Compromissos de entrega firmados abaixo de R$1.200 ampliam o custo de oportunidade e exigem controle rigoroso do volume disponível. Para a safra corrente, a fixação parcial reduz o risco de uma reversão brusca sem eliminar a participação em novas altas.
Cooperativa / Trading
Posição de estoque e originação
Estoque valorizado 8-10% acima da semana anterior. Originação lenta. Monitorar e escalonar Escalonar vendas no mercado futuro para travar margem sobre estoque. Não acumular posição especulativa. Com a máxima intradiária a 4,55¢ do ATH e o ajuste a 11,60¢ do topo histórico, a probabilidade de correção permanece relevante. Cooperativas que originaram abaixo de R$1.500 estão em margem recorde. Proteger essa margem é prioridade sobre ganho adicional.
Torrefação / Indústria
Compra de matéria-prima
Físico tipo 6 entre R$1.700 e R$1.776. Alta de 8-10% em uma semana. Compra defensiva Compra fracionada nos recuos técnicos. Não perseguir preço. Avaliar substituição de blend com conilon (R$1.025). O cenário base (312-357¢) oferece janela de recuo para compra. Perseguir preço próximo de 350¢ implica risco de correção de 15-20%. A diferença arábica/conilon (R$675-750/sc) incentiva reformulação de blends.
Gestor de Fiagro / Carteira Agro
Exposição a café via CPR, CRA, FIDC
Garantias revalorizadas 8-10% na semana. Revisar garantias Atualizar mark-to-market de garantias sobre café. Monitorar produtores com fixações abaixo de R$1.200 (risco de chamada de margem em posição vendida). Vendas físicas firmadas a R$1.200 diante de um mercado próximo de R$1.750 geram custo de oportunidade e podem elevar o incentivo à renegociação. Em estruturas com derivativos e ajuste diário, também pode existir necessidade de caixa para margem. Para carteiras de Fiagro e CRA, o risco principal é a capacidade de entrega e o cumprimento das obrigações financeiras.

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